No cenário global, o Fórum Econômico Mundial (WEF) também aponta a insegurança cibernética como um dos riscos mais severos tanto no curto quanto no longo prazo.
Compreender que a segurança deixou de ser exclusivamente tecnológica e passou a ocupar um lugar estratégico nas decisões de negócio exige ir além do volume de ataques ou técnicas utilizadas, mas entender como a própria natureza dos modelos de negócios mudou.
Há alguns anos, era possível delimitar com mais clareza onde terminava a responsabilidade tecnológica de uma organização.
Hoje, essa fronteira é difusa. Processos críticos dependem de parceiros, serviços especializados, ambientes em nuvem e integrações que extrapolam os limites da empresa.
Essa transformação trouxe ganhos importantes para o negócio, mas também alterou a forma como grandes incidentes cibernéticos acontecem.
O custo da interdependência tecnológica
Os casos mais recentes mostram que compreender um ataque exige olhar além da técnica utilizada e entender como a própria operação está estruturada.
Basta acompanhar os maiores ataques cibernéticos de 2025 que foram motivados principalmente por abuso de identidades, violações SaaS e extorsões de dados e exposições de terceiros entre as principais causas, em vez de explorações complexas como as de dia zero.
Em agosto de 2025, a Jaguar Land Rover enfrentou impactos significativos em sua operação após um incidente cibernético envolvendo um fornecedor estratégico.
Embora o ataque não tenha ocorrido diretamente na montadora, seus efeitos se propagaram pela cadeia de produção, afetando processos e evidenciando o grau de dependência existente entre organizações.
O principal aprendizado desse caso não está no método utilizado pelos atacantes, mas na velocidade com que um problema localizado pode comprometer toda uma operação.
À medida que as empresas integram fornecedores, parceiros e prestadores de serviços aos seus processos, também ampliam o potencial de propagação de incidentes cibernéticos.
Quando um elo da cadeia é comprometido, os impactos podem extrapolar a organização inicialmente atingida, afetando clientes, operações e outros parceiros de negócio.
Mais do que reforçar a importância da gestão de terceiros, o caso demonstra que a continuidade operacional depende cada vez mais da capacidade de compreender e gerenciar riscos que ultrapassam os limites da própria empresa.
Integrações críticas ampliam o alcance dos incidentes
Um mês antes, em julho de 2025, a C&M Software esteve no centro de um dos maiores incidentes cibernéticos já registrados no sistema financeiro brasileiro.
Responsável por integrar instituições financeiras à infraestrutura do Pix, a empresa ocupava uma posição estratégica dentro de um ecossistema altamente conectado. O incidente evidenciou como organizações que concentram integrações críticas podem se tornar pontos de propagação de impactos muito além de sua própria operação.
Em ambientes digitais, fornecedores, plataformas, APIs e serviços especializados deixaram de exercer apenas funções de suporte. Eles passaram a intermediar processos essenciais do negócio e, por isso, também concentram níveis elevados de responsabilidade e confiança.
Esse cenário amplia a necessidade de governança sobre acessos, integrações e privilégios concedidos a terceiros.
Afinal, quanto mais conectada é uma operação, maior tende a ser o alcance de um incidente quando um desses pontos críticos é comprometido.
O que esses incidentes cibernéticos têm em comum?
À primeira vista, Jaguar Land Rover e C&M Software parecem representar problemas completamente diferentes. Uma atua na indústria automotiva; a outra, na infraestrutura do sistema financeiro. Os impactos também seguiram caminhos distintos.
No entanto, ambos revelam a mesma transformação: o risco passou a acompanhar o próprio modelo operacional das organizações.
À medida que empresas ampliam suas integrações, terceirizam processos críticos e adotam serviços especializados, também expandem as relações de dependência que sustentam sua operação.
Essas relações permitem ganhos expressivos de eficiência e inovação, mas tornam a continuidade do negócio cada vez mais condicionada à segurança de todo o ecossistema.
Mais do que analisar a técnica utilizada em cada ataque, esses casos mostram que os maiores incidentes recentes refletem uma mudança estrutural na forma como as empresas operam.
A superfície de ataque deixou de acompanhar apenas a infraestrutura própria e passou a acompanhar a arquitetura do negócio.
Em outras palavras, a segurança deixou de depender exclusivamente da proteção dos ativos internos e passou a exigir governança sobre todo o conjunto de relações de confiança que mantém a organização funcionando.
Conclusão
Se a superfície de ataque passou a acompanhar o modelo operacional, sua estratégia de segurança ainda está focada apenas na infraestrutura?
Continue explorando nossos conteúdos sobre gestão de riscos cibernéticos, identidade, terceiros e arquiteturas integradas para entender como esses desafios se conectam na prática.


